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Um dos desafios mais críticos para quem está buscando uma alimentação saudável, seja através de uma dieta restritiva ou não, são as informações com que somos bombeados na imprensa e na literatura técnica. Milhares de livros são publicados todos os anos sobre nutrição, dieta e alimentação saudável. E a impressão que fica é que a cada duas semanas sai um novo estudo questionando a antiga sabedoria sobre alimentação e nutrição. Primeiro, a gordura foi difamada; agora é considerada parte de uma dieta saudável. Os ovos costumavam ser proibidos para pessoas com problemas cardíacos devido à alta quantidade de colesterol, mas esse não é mais o caso.

O Dr. David Ludwig é professor de nutrição na Harvard School of Public Health e autor do best-seller número um do New York Times (“Always Hungry?”, traduzido para “Emagreça Sem Fome”), um livro que explora os fatores alimentares da fome, obesidade e doenças metabólicas. Em um novo artigo publicado no “Viewpoint” de agosto do Journal of American Medical Association (JAMA), Ludwig e seus co-autores explicam os problemas com as abordagens atuais da pesquisa dietética e por que isso leva a tanta confusão nutricional.

Uma entrevista de Ludwig para a Elemental/Medium é uma das abordagens mais interessantes e completas que já vi sobre o assunto. Desta forma, achei interessante traduzir o texto e deixar para reflexão das razões pelas quais as pesquisas sobre alimentação saudável são tão contraditórias, e como podemos nos armar de conhecimento para evitar as armadilhas comuns do que é publicado na grande imprensa. Apesar do mesmo retratar a realidade americana, sua visão lúcida pode facilmente ser transposta para a ainda mais precária realidade brasileira, em que os conflitos de interesse são ainda maiores e o nível de informação de qualidade consideravelmente mais baixo.

Dr. David Ludwig - Emagreça Sem Fome

 

Elemental: Qual foi o motivador para que você apresentasse seu ponto de vista no artigo do JAMA do qual você foi co-autor?

Dr. David Ludwig: No decorrer de uma semana qualquer, quase todas as pessoas verão manchetes sobre dieta e saúde que chegam a conclusões opostas. E vimos ao longo dos anos como o que se acredita ser um fato estabelecido na nutrição é posteriormente questionado ou revertido. Queríamos abordar as causas dessa confusão e os desafios enfrentados pela pesquisa em nutrição, em comparação com outros campos que têm um histórico mais estabelecido de garantia da qualidade da pesquisa.

Você compara pesquisa nutricional com pesquisa de drogas, realizada normalmente pela indústria farmacêutica. O que você entende serem as principais diferenças?

A pesquisa farmacêutica recebe muito apoio financeiro, porque os medicamentos podem ser altamente rentáveis. Um grande ensaio clínico pode custar várias centenas de milhões de dólares, mas um medicamento bem-sucedido pode gerar muitos bilhões de lucros. Portanto, a indústria farmacêutica está motivada a fazer esses estudos corretamente – para projetá-los adequadamente, para garantir que eles tenham força e poder estatístico para obter as respostas certas. A última coisa que um patrocinador do estudo deseja é um resultado inconclusivo. Se um medicamento experimental não funciona, eles querem saber o mais rápido possível para evitar desperdiçar tempo e dinheiro adicionais. Consequentemente, uma grande infraestrutura cresceu nos últimos anos para apoiar a pesquisa farmacêutica, incluindo organizações de pesquisa clínica contratadas para supervisionar ensaios. Esses CROs (Contract Research Organization – Organização de Pesquisa de Contratos) têm a equipe de especialistas e o know-how para conduzir testes rigorosos e garantir que todos os padrões científicos e regulamentares sejam seguidos adequadamente.

Compare essa situação com um teste dietético padrão. Os pesquisadores que tiverem a sorte de ganhar uma doação do governo dos Institutos Nacionais de Saúde (normalmente 10% de todas as solicitações) terão no máximo US$500.000 por ano, durante quatro ou cinco anos. Embora US$2 milhões possam parecer muito dinheiro, essa é uma pequena fração do orçamento de um teste padrão de drogas. Mais tipicamente, a pesquisa nutricional deve se contentar com orçamentos apertados de pequenas doações concedidas por universidades, filantropos ou pela indústria de alimentos.

Mesmo que a nutrição seja menos bem financiada, a realização dos testes é bem mais complicada. Alterar a dieta de uma pessoa é muito mais difícil do que tomar uma pílula ou placebo, e é praticamente impossível fazer um estudo duplo-cego com alimentos. A dieta é pessoal, envolvendo comportamentos profundamente arraigados relacionados à família, comunidade, cultura, prazer e até valores.

Para tornar as coisas ainda mais desafiadoras, a alteração de um aspecto de uma dieta afeta inevitavelmente muitos outros também. Se você comer mais de um alimento, provavelmente comerá menos de outro. Em um estudo que examina os efeitos do consumo de 10 porções de vegetais e frutas por dia, os participantes podem naturalmente tender a comer menos alimentos processados, porque têm menos fome. Portanto, pode ser difícil dizer se algum benefício à saúde observado no estudo se deve ao consumo de mais vegetais e frutas ou menos das outras coisas. Ao mesmo tempo, os testes de nutrição têm dificuldade em determinar se e como a dieta realmente muda. Você não pode apenas medir os níveis sanguíneos de um medicamento para avaliar a conformidade com o protocolo. O desafio de produzir mudanças significativas na dieta a longo prazo e a incapacidade de medir com precisão essas mudanças criam enormes incertezas.

Além dos desafios de financiamento, há a questão de saber se as pessoas nesses estudos de dieta estão realmente seguindo as instruções.

Este é o elefante na sala. Na maioria dos ensaios clínicos, as pessoas são instruídas a seguir uma dieta ou outra, e recebem um apoio muito moderado – talvez uma reunião com um nutricionista uma ou duas vezes por mês. Espera-se que eles façam essa grande mudança por conta própria. Este tipo estudo é especialmente comum devido ao pouco financiamento e infraestrutura existentes para a pesquisa em nutrição. Intervenções baratas e de baixa intensidade são escolhidas por necessidade. Mas você não sabe realmente se as pessoas as seguem. As pessoas podem fazer alterações por alguns meses, mas, sem o apoio adequado, recorrem às suas formas habituais de comer. Por esse motivo, geralmente observamos perda de peso a curto prazo em testes de obesidade, seguida de recuperação de peso após alguns meses. Esses tipos de descobertas podem ser mal interpretados e chegar-se à conclusão que o tipo de dieta não importa. Mas essa conclusão não segue a lógica. Em vez disso, significa na verdade que a intervenção falhou.

Imagine que há um novo medicamento promissor que pode curar a leucemia infantil. Você conduz um ensaio clínico com um grupo de pessoas designadas para tomar o novo medicamento e outro grupo recebendo um placebo. Mas acontece que o grupo designado para a droga não o tomou conforme a prescrição. Nesse cenário, pode não haver mudança significativa no sucesso do tratamento do câncer. Mas não interpretaríamos esse resultado como significando que a droga é ineficaz. Concluímos que o estudo foi falho. Infelizmente, a realização de testes de dieta nem sempre é realizada com esse padrão.

Você aborda a importância de entender biologia e comportamento. Um é mais importante que o outro em testes de dieta?

Ambos são críticos, mas é importante ter em mente qual deles você deseja estudar ao criar um teste de dieta. Muitas pessoas podem reduzir calorias e perder peso em qualquer dieta temporariamente. Mas depois de alguns dias ou semanas, a fome aumenta e seu metabolismo diminui, o que é uma receita para recuperar o peso. É por isso que precisamos de estudos de longo prazo para ver como o tipo de alimento que ingerimos, além das calorias, pode alterar a biologia e o sucesso da manutenção da perda de peso. Mas a melhor dieta do mundo não funcionará se as pessoas não estiverem motivadas para segui-la. É por isso que também precisamos de estudos de comportamento e ambiente para tornar os desafios da mudança de estilo de vida mais fáceis e sustentáveis.

Como solucionamos esse problema?

As doenças relacionadas à dieta – incluindo obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares – são os principais problemas de saúde pública atualmente. Se você tem ou não uma dessas condições, está pagando por elas através de impostos mais altos, o custo do Medicare e Medicaid e taxas de seguro mais altas. Esses custos são divididido por todos os contribuintes. E para pessoas com uma condição como diabetes tipo 2, o custo pessoal pode ser enorme, incluindo amputação de membros, insuficiência renal, cegueira e expectativa de vida reduzida. Portanto, é do interesse de todos que as pesquisas sobre nutrição e prevenção de doenças sejam bem financiadas e realizadas adequadamente.

Alguns dizem que não podemos pagar novos programas governamentais [para lidar com isso]. Hoje, porém, o custo econômico do diabetes tipo 2 – apenas uma doença relacionada à dieta – se aproxima de US$500 bilhões anualmente. Os custos médicos totais e a produtividade perdida dos trabalhadores de doenças relacionadas à dieta já podem exceder US$1 trilhão por ano. Sem ação, esses números só aumentarão, contribuindo para o déficit orçamentário nacional e ameaçando a competitividade internacional da economia dos EUA. Uma espécie de Projeto Manhattan para doenças relacionadas à dieta custaria centavos comparados com o dólar gasto hoje em dia. O que falta é uma visão nacional clara para alinhar as prioridades de saúde pública com o investimento.

Sabemos que os humanos não estão programados para ser cada vez mais obesos, geração após geração. Algo mudou em nosso ambiente, levando mesmo pessoas altamente disciplinadas a ganhar peso. Temos que entender do que se trata. Um provável culpado são todos os carboidratos processados ​​que entraram em nossa dieta durante os anos de dieta com pouca gordura. Mas essa não é a história toda, e muitos outros fatores estão, sem dúvida, contribuindo. Precisamos de estudos de longo prazo e adequadamente adequados para resolver isso de uma vez por todas.

Precisamos desenvolver a capacidade de conduzir pesquisas nutricionais eficazes, e isso exigirá investimentos sustentados de Washington, incluindo o cultivo de uma nova geração de pesquisadores adequadamente treinados em centros acadêmicos de todo o país.

Que conselho você pode oferecer ao público em geral para ler e consumir notícias sobre pesquisa em nutrição?

Idealmente, os jornalistas médicos precisam de um treinamento melhor para identificar falhas básicas de projeto em ensaios clínicos, para que possam transmitir uma visão mais equilibrada dos pontos fortes e das limitações do estudo. Não queremos que o público seja arrastado para frente e para trás a cada nova pesquisa mal formulada e com resultados questionáveis. Como regra geral, se um ensaio clínico sobre obesidade tiver um pequeno número de participantes (menos de 20 pessoas), se for de muito curto prazo ou se não demonstrar claramente que foram feitas mudanças significativas na dieta, os resultados poderão ser considerados fraco.

Existem certas revistas de pesquisa que as pessoas podem procurar por estudos sobre dieta que sejam mais confiáveis?

Os melhores estudos geralmente acabam nas melhores revistas. Algumas revistas com melhor classificação são JAMA, New England Journal of Medicine, Lancet, BMJ e Annals of Internal Medicine. O American Journal of Clinical Nutrition está no topo do ranking. Mas existem muitos outros periódicos de boa qualidade que publicam pesquisas confiáveis, portanto a identidade de um periódico por si só não é a história completa.

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A pirâmide dos alimentos fornece um guia visual efetivo para seguir uma alimentação saudável

Muitas pessoas estão confusas sobre alimentação saudável. Qual é o seu conselho sobre como se alimentar de forma saudável?

Defendo uma dieta de “baixa carga glicêmica” – que controla o aumento da glicose no sangue e insulina após a refeição. A maneira de conseguir isso é reduzir os carboidratos processados ​​(grãos refinados, produtos à base de batata e açúcar); aumento de gorduras saudáveis, como nozes e manteigas, abacate, azeite e até chocolate escuro; e ter uma quantidade adequada de proteína, que pode vir de fontes animais ou vegetais. Essa abordagem envolve uma redução moderada no total de carboidratos, mas ainda oferece muita flexibilidade na escolha dos alimentos. Para pessoas com diabetes, a restrição mais severa de carboidratos pode ter benefícios adicionais. É claro que nem todos os pesquisadores ou médicos concordam com esta recomendação. É por isso que precisamos de pesquisa melhores e definitivas.
Melhorar a qualidade da pesquisa em nutrição será fundamental para a saúde pública e a competitividade econômica internacional dos EUA nos próximos anos. O modo padrão – depender da indústria farmacêutica para criar medicamentos cada vez mais poderosos para tratar doenças causadas pela dieta – não faz sentido. É um grama de prevenção por um quilo de cura.

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