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O que é pré diabetes

Quando atendo um novo paciente, estou especialmente atenta a algumas características em particular e à descrição dos motivos que o levaram à consulta que acabam sendo revelados em sua história. E há uma razão muito boa para isso: alguns pacientes ainda não possuem o diabetes, mas podem vir a desenvolvê-lo e podem apresentar sua forma introdutória – o pré diabetes. Mas o que é pré diabetes, e quais elementos são alertas primários?

Dentre os riscos que aponto nos parágrafos acima, os mais imediatos são os seguintes:

  • O paciente possui um extenso histórico familiar de diabetes?
  • O paciente é de etnia asiática, indígena ou negra?
  • Caso seja uma mulher e já tenha tido um ou mais eventos de gravidez, ela apresentou o diabetes gestacional?
  • O paciente é obeso?
  • Novamente, caso seja uma mulher, a paciente tem síndrome do ovário policístico?

Por quê estes fatores são importantes durante a consulta e posterior diagnóstico? Porque eles podem ser indícios de que o paciente está em risco de desenvolver diabetes adulta (tipo 2), e isso pode levar a múltiplos problemas médicos importantes.

Muitas pessoas já ouviram falar de diabetes tipo 2, uma doença em que o corpo perde a capacidade de auto-regular os níveis de açúcar. Também conhecido como diabetes do adulto ou não-insulinodependente, ele geralmente afeta pessoas com fatores de risco conhecidos e pode levar anos para se desenvolver completamente, ao contrário da diabetes juvenil (tipo 1), que pode se desenvolver de forma aleatória e rápida. Mas nem todos sabem o que é pré diabetes, e como os níveis altos de açúcar (ou glicose) no sangue podem fazer mal e levar à consequências catastróficas.

Por quê o nível alto de açúcar no sangue é um problema?

O diabetes não tratado ou mal tratado significa níveis de açúcares sanguíneos persistentemente elevados, o que pode causar bloqueios arteriais significativos e resultar em acidentes vasculares cerebrais e ataques cardíacos. Os altos níveis de açúcar no sangue também causam danos nos nervos, ocasionando dores na perna com sensação de queimação que eventualmente dão lugar a dormência. Isso, combinado com bloqueios arteriais, pode resultar em deformidades e tecido necrosado, razão pela qual muitas pessoas com diabetes acabam tendo que amputar membros. Os pequenos vasos sanguíneos que irrigam a retina também são afetados, o que pode causar cegueira. E não se esqueça dos rins, que são especialmente suscetíveis ao dano causado pelo alto nível de açúcar no sangue. O diabetes é uma das principais causas de insuficiência renal que requer diálise e/ou transplante renal.

Efeitos do açúcar no pré diabetes

Mas espere! Tem mais. O alto nível de açúcar no sangue prejudica a função dos glóbulos brancos, crítica para um sistema imunológico saudável –  e o açúcar é uma ótima fonte de energia para bactérias e fungos invasores. Esses fatores colocam as pessoas em risco de infecções desagradáveis ​​de todos os tipos.

Esses fatos são assustadores, e devem ser levados extremamente a sério por quem os lê. O pré diabetes é a porta de entrada para todas estes sintomas, mas ainda encontra-se em um estágio em que a doença pode ser revertida caso a pessoa leve o problema a sério e tome as atitudes necessárias para tal.

Como é feito o diagnóstico do pré diabetes?

Normalmente, seu médico testará seus níveis de glicose no sangue caso você apresente excesso de peso (resultante de um índice de massa corporal maior que 25) e se você tiver um ou mais dos fatores de risco listados acima.

Mesmo que você não tenha excesso de peso e não tenha nenhum dos fatores de risco, seu médico pode querer começar a testar seu nível de glicose no sangue a cada três anos quando a partir dos 45 anos. Isso é uma medida importante a ser implementada porque o risco de desenvolver o pré diabetes (e consequentemente o diabetes tipo 2) aumenta com a idade. Como há diversas complicações possíveis às pessoas que são acometidas pelo diabetes (por exemplo, problemas cardíacos e problemas nervosos), é uma boa idéia estar vigilante sobre a detecção de anormalidades da glicose no sangue o mais cedo o possível.

Para que um paciente seja diagnosticado com o pré diabetes, o médico pode executar um dentre dois diferentes testes – ou para um maior nível de acuidade, ambos. Os testes são:

  • Teste de glicemia plasmática em jejum: após um jejum de oito horas, é efetuada uma medição de sua glicemia plasmática. Devido à necessidade de ser realizado em jejum, normalmente é feito pela manhã. O médico verifica o nível de glicose no sangue (nível de açúcar no sangue) depois de extrair uma pequena amostra de sangue. Caso o nível de glicose no sangue esteja entre 100 e 125 mg/dL, o paciente será diagnosticado com pré diabetes. Você pode ouvir o médico usar a frase “glicemia de jejum prejudicada”, o que é pré diabetes – apenas uma maneira diferente de denominar quando ele é diagnosticado com o teste de glicemia plasmática em jejum. Se o seu nível de glicose no sangue estiver acima de 126 mg/DL com o teste de glicemia plasmática em jejum, você pode ter diabetes.
  • Prova de tolerância à glicose oral (PTGO), ou teste de tolerância à glicose (TTG) ou ainda teste oral de tolerância à glicose (TOTG): Este é outro teste usado para diagnosticar o pré diabetes. O médico lhe dará instruções sobre como se preparar para o teste, mas você não poderá comer nada por oito horas antes do teste; você estará jejuando. Desta forma, o teste de tolerância oral à glicose é semelhante ao teste de glicemia plasmática em jejum. No dia do teste, o médico testará o nível de glicose no início do procedimento; isso avalia seu nível de glicemia em jejum. Então, você beberá 75g de uma mistura muito açucarada. Duas horas depois, seu nível de glicose no sangue será medido. Se o seu nível de glicose no sangue estiver entre 140 e 199 mg/dL duas horas depois de beber a mistura açucarada, o diagnóstico será positivo, o que é pré diabetes. Você pode ouvir o médico usar a frase “tolerância à glicose prejudicada” ou IGT, que é outro termo para a pré-diabetes quando é diagnosticado com o OGTT. Se o seu nível de glicose no sangue estiver acima de 200 mg/dL com o teste oral de tolerância à glicose, você pode ter diabetes.

Agora que sabemos o que é pré diabetes… O que podemos fazer a respeito?

Se sabemos quem tem o maior risco de desenvolver o diabetes e que este leva anos para se desenvolver, devemos ser capazes de preveni-lo, certo? Certo!

Evitando que o pré diabetes se torne diabetes

Um artigo recente e aprofundado de especialistas em endocrinologia demonstra que o prediabetes é uma epidemia mundial. O pré diabetes é definido por um nível de açúcar no sangue em jejum entre 100 e 125, ou um resultado anormal em um teste oral de tolerância à glicose. O que podemos fazer para tratar o prediabetes? Os autores analisaram múltiplos estudos amplos e bem conduzidos, e todos mostraram que o pré diabetes pode ser atacado diretamente, atrasando ou até mesmo prevenindo sua progressão para o diabetes.

Um dos maiores estudos a respeito foi conduzido recentemente nos Estados Unidos. Mais de 3.000 pessoas de 27 centros com excesso de peso ou obesidade e que tinham pré diabetes foram distribuídos aleatoriamente em um dos três grupos:

  1. Recomendações padrão de estilo de vida, além da medicação metformina (Glifage XL);
  2. Recomendações padrão de estilo de vida mais uma pílula de placebo;
  3. Um programa intensivo de modificação do estilo de vida.

O programa intensivo incluiu aconselhamento dietético individualizado, bem como instruções para caminhar rapidamente ou realizar outros tipos de exercícios físicos por 120 minutos por semana, com o objetivo de atingir uma perda moderada de peso.

Os investigadores seguiram os participantes do experimento ao longo de três anos e os resultados foram consistentes com os de muitos outros estudos: as pessoas no grupo de modificação do estilo de vida intensivo (aconselhamento nutricional e orientação para exercícios) foram muito menos propensas a desenvolver diabetes nesse período do que aquelas nos outros grupos.

Vamos juntar números a estes resultados? A incidência cumulativa estimada de diabetes em três anos foi de 30% para o placebo, 22% para a metformina e 14% para a modificação do estilo de vida. A incidência de diabetes foi 39% menor no grupo de modificação do estilo de vida do que no grupo metformina. Na verdade, eles finalizaram o estudo mais cedo do que o esperado porque considerou-se antiético continuar mantendo os pacientes nos grupos de placebo e de metformina considerando as evidências conclusivas obtidas.

Os autores do artigo referente ao pré diabetes também analisaram a multiplicidade de outros estudos que examinaram mais de perto quais tipos de dietas são úteis e concluíram que “o consenso é que uma dieta rica em grãos integrais, vegetais, frutas, gorduras monoinsaturadas e baixa (ou melhor ainda – nula!) em carne, gorduras trans e açúcares simples é benéfica, juntamente com a manutenção do peso corporal ideal e um estilo de vida ativo”.

No final das contas… É realmente apenas uma questão de seguirmos o bom senso. E é por isso que meu marido e eu adotamos uma dieta vegetariana, limitamos bastante nossa ingestão de açúcar e carboidratos, nos servimos de quatro ou mais porções de alimentos à base de plantas diariamente e tentamos manter os exercícios físicos em dia, mesmo com uma agenda cheia.

Uma palavra a respeito de remédios e medicação

Para os meus pacientes que por qualquer motivo não podem mudar sua dieta e estilo de vida, recomendo a utilização de remédios/medicação. Para os pacientes que estão no limiar de adquirir o diabetes e que têm múltiplos fatores de risco ou outras doenças, a medicação realmente é indicada. Há também pessoas que querem adicionar um remédio à dieta e ao exercício para aumentar a perda de peso e diminuir ainda mais seu risco, e isso também é válido! Mas vale ter em mente que nada será mais efetivo do que adotar um estilo de vida que seja realmente mais saudável e condutivo à uma melhor saúde geral.


Citações utilizadas neste artigo que ajudam a explicar o que é pré diabetes:

  1. Edwards CM, Cusi K. Prediabetes: A Worldwide Epidemic. Endocrinology and Metabolism Clinics of North America, December 2016.
  2. Pan XR, Li GW, Hu YH, et al. Effects of diet and exercise in preventing NIDDM in people with impaired glucose tolerance. The Da Qing IGT and Diabetes Study. Diabetes Care, April 1997.
  3. Knowler WC, Barrett-Connor E, Fowler SE, et al. Reduction in the incidence of type 2 diabetes with lifestyle intervention or metforminNew England Journal of Medicine, February 7, 2002.
  4. Lindstrom J, Peltonen M, Eriksson JG, et al. Improved lifestyle and decreased diabetes risk over 13 years: long-term follow-up of the randomised Finnish Diabetes Prevention Study (DPS)Diabetologia, February 2013.
  5. Tuomilehto J, Lindstrom J, Eriksson JG, et al. Prevention of type 2 diabetes mellitus by changes in lifestyle among subjects with impaired glucose tolerance. New England Journal of Medicine, May 3, 2001.
  6. Prediabetes: can prevention come too soon? Blog post by Richard Lehman, Cochrane UK Senior Fellow in General Practice, November 11, 2016.

4 Comments

Dra. Juliana Laramarço 12, 2018 at 10:50 pm

Dra Juliana sou sua paciente no medical care, fui diagnosticado com pré diabetes, gostaria de saber o nome do aparelho que mede a glicose sem furar os dedos, desde já agradeço

    Dra. Juliana Laramarço 12, 2018 at 10:50 pm

    Boa tarde, Ivanete! Espero que esteja tudo bem com você. O nome do aparelho é Freestyle Libre, da fabricante Abbott. Você pode verificar mais informações neste link: https://www.freestylelibre.com.br/

Dra. Juliana Laramarço 12, 2018 at 10:50 pm

Dra. Juliana,
Gostei muito do seu artigo.
Embora eu, graças a Deus, não tenha diabetes, tenho casos na família.
Quando a sra. enumerou os riscos da pré-diabetes, falou em “extenso histórico familiar”. Isto se aplica à todo tipo de diabetes? Porque no meu caso, são apenas os de tipo 02.
Obrigada!

    Dra. Juliana Laramarço 12, 2018 at 10:50 pm

    Eliane, no caso do Diabetes Tipo 1 a associação entre sua ocorrência e fatores familiares é comprovada cientificamente de maneira clara. Já em relação ao Tipo 2, a chance de incidência da doença em pessoas cujos familiares imediatos possuem a doença é aumentada, mas não é claro se por fatores ambientais ou genéticos. Há pesquisas que indicam indícios de que há uma propensão genética, mas não necessariamente correlatos.

    Isto quer dizer que apesar de possivelmente haver uma propensão genética maior de desenvolver o Diabetes Tipo 2 caso você tenha parentes que possuam a doença, se conseguir gerenciar os fatores ambientais (alimentação, tabagismo, stress) estará dando um passo significativo para evitá-lo. Desta forma, considerando seu quadro clínico, acho que você só deve se preocupar caso apresente dificuldades em manter o nível de insulina dentro de patamares saudáveis dentro do seu estilo de vida saudável.

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